Criando crianças tolerantes. Há mágica?

“Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito que tens de dizê-la”. (*) 

Já comentei em outros posts aqui que tenho o privilégio de ter um pai dicotômico em sua essência: feminista e nordestino.  Ele me ensinou muito sobre tolerância, especialmente no tocante às culturas diferentes (na minha infância convivemos muito com americanos), ao respeito à religião alheia, ao mau gosto pela música (até hoje eu julgo as pessoas pela música que ouvem), à péssima escolha de qual time de futebol torcer, sobre como lidar com ideias  que vão de encontro às minhas , mais do que isso, sobre hora certa de calar pra evitar um conflito por algo que não vale a pena. Sempre nos ensinou que deveríamos nos posicionar, não deixar a opinião dos outros engolir a nossa, que tínhamos que ter argumentos e que o argumento nunca deve ser a força. A frase que ele mais usava na nossa infância era: Se você precisou bater na sua/seu irmã(0) é porque você não tinha argumentos para resolver numa conversa e, por isso, você deveria ter parado pra pensar suas atitudes.  Tenho orgulho  das lições que aprendi e adoraria saber que meus filhos vão perpetuar esse estilo de vida. O que não é uma tarefa das mais fáceis…

Não significa dizer que não houveram brigas na minha família. Ao contrário, poucos eram os dias que não havia confusão. Mas que com o passar do tempo, a base foi se solidificando e os ensinamentos me ajudaram a tolerar colegas de trabalho chatos, gente na fila do banco, clientes que eu queria fazer uma fogueira, gente que eu queria mandar pra um exílio na Groenlândia. E, com a chegada dos meus filhos, eu fui tentando recordar atitudes positivas que ele preconizava no dia-a-dia. Adoraria ter,mais do que miniaturas, uns “minis me” numa versão upgrade. Ainda mais tolerantes, ainda mais bem resolvidos, ainda mais abertos à ouvir opiniões alheias que divirjam das suas e que os façam pensar. 

praia

1- Atividades interativas em família – Não é ir ao cinema (isso é legal, mas não entra nessa categoria). São atividades em que vocês possam interagir, conversar. Indo de uma simples sessão de “adivinha o que eu estou desenhando” à um passeio no parque ou uma caminhada até a padaria. Porque não ouvir música junto? cantar bem alto? Minhas melhores e mais longas conversas com meu pai aconteciam no caminho para a igreja aos domingos pela manhã. Na adolescência, pela beira da praia aos sábados. 

2- Respeitar o sentimento exagerado dos outros – Sou chorona. Choro por tudo…”manteiga derretida”…E por qualquer coisa eu chorava (e ainda choro). Tanto fazia se era eu brigando com você ou você brigando comigo, eu iria chorar do mesmo jeito (e choro)! Na verdade esse é um ensinamento que meus irmãos aprenderam mais rápido do que eu: Respeite o jeito que as pessoas têm de colocar seus sentimentos pra fora. Uns ficam em silêncio, outros choram, outros gritam. O que não será tolerado é a agressão, o desrespeito, a má-educação. No mais…sentar e chorar por 1h é um problema de hidratação, nada além disso. 

3- Tente não ser o juiz da casa – Muitas vezes nossos filhos encontram soluções muito mais justas para a resolução dos seus conflitos do que nós encontraríamos se pensássemos por uma semana inteirinha. Intervenha apenas no estritamente necessário (quando uma guerra estiver na iminência de ser deflagrada). Concentre-se no motivo principal e na aparente solução. Não se perca no “foi ele quem começou primeiro…a culpa é dela…da outra vez foi assim…”. 

4- Ignore a expressão “Criança é tudo igual”. Trate-os como indivíduos. Observe suas aptidões, valorize suas diferenças e respeite-as. Dê espaço para que eles possam ser eles mesmos e não uma projeção do que você acha que uma criança deve ser. você irá se surpreender com as maravilhas que têm em casa. 

5- Elogie. Valorize o que fizerem certo. Um elogio vindo de alguém que você admira é um estímulo irresistível pra que o comportamento se torne intrínseco e, portanto,passe a ser  naturalmente reproduzido na presença ou na ausência de quem se admira.  

E você…quais são as suas dicas ou as dicas da sua família para trabalhar a tolerância e o respeito? Conta aqui pra gente. 

(*) Frase atribuída à Voltaire, entretanto, não aparece em nenhum dos seus estudos deles. Alguns atribuem à Evelyn Beatrice Hall, quando escreveu uma biografia sobre Voltaire em 1906.